31 Janeiro 2011

Programação de fevereiro 2011

 As várias faces do cinema alemão

No segundo mês do ano, o Consciência apresenta uma seleção de filmes alemães de épocas e cineastas diferentes, todo sábado, na Fatec (Faculdade de Tecnologia. Avenida União dos Ferroviários, 1.760, Centro), sempre às 19h. As sessões são gratuitas, com debate após a apresentação dos filmes.
Textos: Rafael Amaral



05/02: M – O Vampiro de Düsseldorf (1931)
Diretor: Fritz Lang.
117 min. / P&B
Classificação indicativa desconhecida.

Em M, não há sangue, mas sim sombras e o desprazer em analisar homens sujos em volta de uma causa comum: a desgraça social gerada por um assassino de crianças. Algum filme de horror e suspense atual teria coragem suficiente de se apoiar, ao contrário do foco comum, na sociedade que cerca o assassino? Pois esse trabalho traz o inimigo com uma face ambígua, ao passo que utiliza a morte de crianças para fazer pensar em outras questões. Hans Beckert (Peter Lorre), ainda que desencadeie todos os casos e problemas do filme, é também o alimento do drama, da fria análise e da síntese de uma loucura que se propagava na sociedade alemã da época. O cineasta criador de Metrópoles – que, por esse feito, foi convidado a ser o “cineasta do partido nazista” –, coloca seu filme em um ponto de equilíbrio entre o cinema mudo e o falado, e evoca, também, um clima sombrio à sua sociedade aterrada em discórdias e desentendimentos. A Alemanha daqueles anos era uma panela de pressão, o que leva a crer que Lang interessou-se mais em retratar seu meio e menos o profundo olhar de seu assassino. Ou, ainda, menos o seu deleite enquanto capturava uma criança. Lang coloca-se à distância, espaço suficiente para embutir ao filme certo rascunho de uma sociedade rumo à sua perda total.


12/02: O Enigma de Kaspar Hauser (1975)
Diretor: Werner Herzog.
110 min. / cor
Classificação indicativa desconhecida.


A observação da frase de abertura, de que “esse grito horrível em volta de você é o que as pessoas chamam de silêncio”, em O Enigma de Kaspar Hauser, mostra o quanto é necessário se aproximar de certas coisas para entendê-las, para vê-las como realmente são. Um grito ensurdecedor ao meio do silêncio é o grito de Kaspar Hauser, um rapaz encontrado em Nuremberg, em 1828, deixado por um homem à mercê da sorte. Na verdade, Kaspar esteve preso em um porão durante toda a sua juventude, sem qualquer contato com o mundo exterior. O cineasta Werner Herzog utiliza tal ponto de partida para traçar um paralelo entre os espaços internos, então comuns ao protagonista, e os externos, a natureza a ser descoberta. No filme, as descobertas menores são as grandes conquistas, um triunfo do olhar minimalista da personagem – assim como do diretor – sobre aquilo que o circunda. São coisas que, se não fazem sentido, então as descobertas maiores também não farão. Apesar de atrasado, Kaspar segue o desenvolvimento pelo qual todos os humanos passaram, porém de forma rápida, sem ao menos parar para respirar, sem qualquer questionamento. A personagem de Herzog libera em cada um os questionamentos considerados descartáveis – mas essenciais –, difíceis de serem evocados na época atual. Por isso, Kaspar faz pensar, ao passo que desafia a religião e a filosofia graças à sua maneira simplista de ver o mundo.


19/02: A Terceira Geração (1979)
Diretor: Rainer Werner Fassbinder.
105 min. / cor
Classificação indicativa desconhecida.


A visão sobre ações de grupos de extrema esquerda nos anos 1960 e 1970, pelo olhar de Rainer Werner Fassbinder, resulta na comédia delirante A Terceira Geração. Difícil de definir, o trabalho do provocador cineasta alemão apresenta situações anárquicas de um grupo que se considera bem controlado, auto-suficiente e organizado. A estética adotada pelo cineasta aparenta ser séria demais, como em alguns filmes políticos da época e com aqueles rostos que exalam a ilusão de um mundo melhor por meio da revolução das armas e de atos de violência. Frente a essa estrutura, o público deverá entender que (1) o filme não deixa de levantar questões sérias a partir de determinadas situações ou mesmo de ser emocionante; e que (2) a comédia não serve somente à deterioração da imagem dessas personagens, mas é inerente à idéia embutida no material: o mundo será levado ao caos enquanto algumas poucas pessoas com certo determinismo e espírito político incorruptível forem guiadas por mentores ocultos, em um verdadeiro teatro no qual os protagonistas não sabem que estão interpretando. Uma frase dita no filme é emblemática para entender as idéias de Fassbinder sobre o próprio cinema: “A verdade é uma mentira. Todo filme nos diz isso. Nos filmes, as mentiras aparecem como idéias e não são apresentadas como verdades. É minha idéia de utopia – a única que há”.


26/02: A Vida dos Outros (2006)
Diretor: Florian Henckel von Donnersmarck.
137 min. / cor
Não recomendada para menores de 12 (doze) anos


O diretor e roteirista Donnersmarck decide correr um risco, com uma história fictícia, ao mudar seu personagem-chave de lado em um curto tempo de filme. Trata-se de um agente da Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental, incumbido de ouvir as conversas de um casal o dia todo e tentar descobrir, assim, evidenciais que apontem à traição a esse Estado comunista. No entanto, o que esse agente descobre é um novo mundo, de relações verdadeiras e de amor recíproco, tão diferente daquele em que vive, no qual o sexo é pago e onde as pessoas se sentem frágeis ao perceberem estar na mira de algo. Esse homem, então, muda de lado e o filme consegue sustentar essa mudança, ao passo que o público ouve as mesmas coisas que ele e, como ele, torna-se cúmplice de uma história de perda e reconstrução. Diferente de outros filmes sobre o ato de vigiar, como A Conversação, aqui aquele que coloca o “grampo” nos outros o faz por uma ideologia que, logo, será contrariada, o que colocará em xeque sua obediência ao sistema. Quem interpreta o agente da Stasi é Ulrich Mühe, que morreu em julho de 2007, pouco depois das filmagens de A Vida dos Outros. Contra sua face gélida e perfeitamente ajustada há o escritor interpretado por Sebastian Koch. Aos olhos do agente, ele é um homem realizado em seu trabalho e em sua vida pessoal e sexual, ao lado da companheira Christa-Maria (Martina Gedeck), a única mulher realmente bela a passar pelo filme.

Auditório FATEC - Av. União dos Ferroviários, 1760 Jundiaí/SP, prédio ao lado do POUPATEMPO (entrada pelo local). Para chegar, de carro, ao prédio do auditório onde são realizadas as sessões, basta passar em frente ao galpão onde ficam os carros de carnaval e entrar à esquerda em uma ruazinha estreita. Em frente a esta rua fica às vezes uma placa de "proibido entrar" - não tem problema, entre assim mesmo.

26 Janeiro 2011

Último sábado de Janeiro

Este sábado, exibiremos "A Fraternidade é Vermelha". Vale à pena conferir, mesmo quem não viu nenhum dos outros filmes da trilogia. Às 19h, de graça, no auditório da Fatec!
Para dar um gostinho, vejam esse trailer, infelizmente sem legendas em português.

07 Janeiro 2011

Programação de Janeiro de 2011

TRILOGIA DAS CORES
Para inaugurar o ano de 2011 na Fatec, exibiremos em três dias a Trilogia das Cores, de Krzysztof Kieslowski. Os textos a seguir sobre os três filmes são de Rafael Amaral (veja seu blog sobre cinema), grande colaborador do Cineclube Consciência e jornalista do Bom Dia.
As sessões ocorrem aos sábados, às 19h, gratuitamente, no auditório da Fatec. (veja como chegar ao local no fim deste texto).

15/01 - A Liberdade é Azul
título original: (Trois Couleurs: Bleu)
lançamento: 1993 (França)
direção:Krzysztof Kieslowski
atores:Juliette Binoche, Benoít Régent, Floence Pernel, Charlotte Very.
duração: 97 min

A impossibilidade de deixar seu passado é o drama de Julie (Juliette Binoche), mulher que busca sua independência após a morte do marido e filha em um acidente de carro. “Independência” é um termo não muito adequado quando se fala de alguém livre para fazer o que quiser, mas presa ao seu passado – o causador da criação de um meio de impedimento interno. Julie pode suportar mudar de casa, sair da calmaria do campo e do luxo para ir a um local nem sempre agradável visualmente: um pequeno apartamento de subúrbio. Deixa todos os móveis para trás, resolve vender a casa e ali conserva apenas um pequeno colchão, servindo de aconchegante reserva para se deitar com seu amante. Apenas um petrecho ela resolve guardar de sua “velha vida”: um enfeite de pedras azuis, talvez um dos famosos pontos de ligação – uma espécie de marcador – usado por Kieslowski em seus filmes.

22/01 - A Igualdade é Branca
título original: (Trzy Kolory: Bialy)
lançamento: 1994 (Polônia)
direção:Krzysztof Kieslowski
atores:Zbigniew Zamachowski, Julie Delpy, Janusz Gajos, Jerzy Stuhr.
duração: 89 min

As fronteiras, idiomas diversificados e preconceitos promovem a desunião numa Europa em busca da unificação. A personagem central, um passivo cabeleireiro a favor de encontrar sua paz de espírito sem se importar em qual terra está, mostra mudanças, de um pacato homem apaixonado a um amante vingador. Inúmeras possibilidades de vida desaparecem enquanto a unificação européia exige que seus novos moradores – antes adaptados ao modelo comunista – aceitem aderir e, dependendo do caso, vislumbrar um vizinho para adotar como exemplo, seja econômico ou social. A Polônia, em 1994 (ano em que este filme foi lançado), não tinha o poder francês. Talvez não quisesse esse exemplo próximo; talvez lutasse para se manter em outra estrutura e ainda assim reservar uma dose de críticas a dizer sobre os russos.

29/01 - A Fraternidade é Vermelha
título original: (Trois Couleurs: Rouge)
lançamento: 1994 (França)
atores:Irene Jacob, Jean-Louis Trintignant, Zbigniew Zamachowski, Jean-Pierre Lorit.
duração: 99 min

Se a primeira parte foi descrita como um drama, a segunda como uma comédia, na terceira o próprio Kieslowski deixa à crítica e ao público decidir a qual gênero o filme pertence. No capítulo final da consagrada trilogia, um momento representa o sentido de equilíbrio da “fraternidade”, entre a “liberdade” e a “igualdade”. Ao descobrir um intruso na sociedade, o homem que pode ouvir as conversas receptadas ilegalmente de seus vizinhos, a modelo Valentine (Irène Jacob) decide revelar aquilo que chama de “repulsivo”. Mas, antes de denunciar esse homem, deixa nascer uma relação com ele, algo que ela não sabe explicar e que ocorre após atropelar seu cão. Os traços de Valentine remetem a uma jovem garota puritana, que, sem muitas explicações, decide mudar – com certo receio – sua maneira em lidar com pessoas. Despenca seu conhecido universo de belezas estéticas, chegando a um túnel escuro que é a vida do juiz; tudo, a seguir, é conduzido por palavras de confiança de um homem um dia triste por ter perdido seu grande amor. Ao tentar encontrar uma saída a seu passado, induz ao prazer de celebrar as coincidências mostradas. São as coincidências de Kieslowski: nunca gratuitas e sempre enriquecedoras.




Auditório FATEC - Av. União dos Ferroviários, 1760 Jundiaí/SP, prédio ao lado do POUPATEMPO (entrada pelo local). Para chegar, de carro, ao prédio do auditório onde são realizadas as sessões, basta passar em frente ao galpão onde ficam os carros de carnaval e entrar à esquerda em uma ruazinha estreita. Em frente a esta rua fica às vezes uma placa de "proibido entrar" - não tem problema, entre assim mesmo.


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